Curta-nos!

Esteja sempre por dentro da Crítica!

O Autor!

Descubra mais sobre a pessoa por trás das entrelinhas!

Junte-se à Crítica!

Entre em contato e anuncie conosco!

Uma noite de São João




Os fogos estalavam alto no céu. As pessoas riam. As fogueiras emitiam o barulho do crepitar do fogo, junto com uma fumaça insistente que teimava em remover perfumes e fazer prevalecer seu cheiro e fuligem. Era, em última análise, uma noite boa.

A banda tocava uma das melhores músicas, dessas que nem mesmo as centenas de anos conseguirão apagar. Eu andei com aquele meu sorriso característico no rosto. Peito cheio. Pose de quem sabe o que faz. Esse tem sido meu melhor ato, meu melhor papel, nos últimos 25 anos. Eu sou bom nisso.

Cheguei no local, e junto com mil outros personagens, fiz uma festa. O álcool e a adrenalina foram se misturando até fazer começar a gerar aquele velho conhecido palpitar sem ritmo, no peito. Os meus dedos tamborilavam a melodia do forró, denunciando que havia chegado num limiar no qual era perigoso continuar bebendo. E a música tocava. E eu dançava. E o meu papel permanecia intacto.

Até determinado ponto, quando ela apareceu. 

Haviam então duas alternativas: Ceder ao impulso ou manter a dignidade. Meu cérebro fazia contas e matemáticas sentimentais na velocidade da luz, mas é claro que eu sabia que aquilo era mera vaidade. Eu não poderia ceder. Dar o braço a torcer já não era mais uma possibilidade. Ela mesma tinha roubado isso de mim.

Concluí, nesse momento, que pior do que se humilhar por amor é justamente ter tido de si roubada a possibilidade de sequer tentar se humilhar por amor. E, por mais foda que isso seja, ela tinha roubado isso de mim.

Procurei um cigarro, mas naquela noite eu não estava fumando. Dei mais um trago na bebida e então respirei fundo para começar a iniciar meu caminho rumo ao saco que é ter orgulho e amor próprio. De peito inflado, como sempre, iniciei a caminhada. E foi uma bosta.

Mas, nos dez minutos seguintes, eu já não lembrava mais. 
Eu sou bom em não lembrar mais.
Eu sou realmente bom nisso.

E o baile seguiu; e de alguma forma eu senti que quem mais perdeu naquela noite... Não tinha sido eu.




Olhos Selvagens





No saguão subterrâneo, o ar pútrido se condensava até quase tornar-se visível. Gases emitidos pelas tubulações grossas que saíam das laterais das paredes faziam o ambiente ficar com um tom esverdeado, que contrastava com a presença magnânima que Arthemis emitia; presença esta que era emanada naturalmente - Característica chave do seu clã Vampírico

"Malditos Ventrue..." - Amaldicoei, corrigindo-me depois - "Não, espera... Eu também sou um" - Ri nervosamente, fazendo com que minha algoz parasse por uma fração de segundo.

Maré de Sangue.


- Arthemis! Não sabia que tinha entrado para o ramo do circo. Desde quando treina gorilas? - Falei, impregnando cada palavra de todo o preconceito raivoso que conseguia reunir dentro de mim. Não, não acerca da cor da pele do outro Vampiro, mas sim quanto à sua origem: Um nojento de sangue tão fraco que até mesmo os traços familiares das linhagens boiavam por sobre a água que era sua vitae.

O grandalhão enfureceu-se e levantou. Logo pude ver como até mesmo o bebarrão do Thorin conseguiu sobreviver a ele: Era muito lento e desengonçado. Não tive que me esforçar muito para esquivar do seu primeiro soco, que deslocou uma enorme massa de vento por sobre minha cabeça, que se abaixou agilmente. Girando apoiado sobre meus calcanhares, rodei, repousando minhas duas mãos por sobre a superfície dos seus globos oculares. Arranquei seus olhos.

Seu guincho foi alto, e foi quase cômico ver seus 200 quilos de gordura e músculos caindo como um gigantesco saco de batatas. Eu nunca fui conhecido por minhas habilidades de combate, mas não se sobrevive 480 anos sem saber um truque ou dois. E esse eu aprendi na prática: Olhos, por sua complexidade e delicadeza, são as partes mais difíceis e demoradas para um Vampiro regenerar. Aquele guarda-costas estava fora de jogo, pelo menos pelos próximos 50 minutos.

- Obrigado por adiantar o que eu já ia fazer. Podemos voltar aos negócios? - Essa era a voz de Arthemis. Impressionante como o tempo só lhe fazia bem; como um vinho cuidadosamente cultivado. Como esperado, ela apenas sorria enquanto assistia seu capanga estrebuchar no chão, chorando bobagens inaudíveis. Eu respondi:

- Claro. E então, quando você vai começar a explicar que merda está fazendo ao lado do Príncipe?! Pensei que você soubesse o quanto o Dimitri é uma ameaça à nossa raça, Arthemis! Por que você está agindo como mais uma de suas marionetes idiotas? E sério, atacar o Helsing? Você sabe que lhe demos anistia. Nenhum vampiro pode tocá-lo! Nós o devemos. Já imaginou se o tetravô dele não tivesse tirado O Conde da equação? Como seria nossa não-vida hoje?!

Sua voz foi clara - Ora, Ryan. O que é isso que consigo vislumbrar? Você tem ficado mole com o tempo? Está defendendo seu amiguinho cachaceiro? Acho que não fiz um bom trabalho nos 30 anos que passei te treinando, fiz? E se O Helsing-Avô conseguiu colocar um fim ao Vlad Tapes, você não tem uma parcela de culpa nisso? Aiai... Você não vê, Ás de Espadas? Não vê que os tempos mudaram!? Hoje tudo o que nos define são os números - Ela deslizava por entre os poucos metros que nos separavam, num misto de rapidez e lentidão. Seus olhos emitiam um brilho completamente insano. Familiar.

Números? - Perguntei - Que tipo de números? Do que diabos você está falando? - A minha curiosidade era genuína.

- Meu Deus, você, O grande ÁS DE ESPADAS, está tão por fora assim? Pensei que teria feito o mínimo do seu dever de casa antes de comprar essa briga. Dimitri tem me permitido o que nenhum outro Príncipe nos últimos 200 anos permitiu, Ryan. Ele me deixou começar meu pequeno exército. O meu sonho de toda uma não-existência! No começo eu tinha no máximo 500 carniçais. Desde que eu e ele nos aliamos, meus números cresceram, digamos... Exponencialmente.

Carniçais! Mais um dos lixos imundos que compõe nosso tempo moderno. São humanos que se viciam no nosso sangue imortal. Alimentá-los uma vez, esporadicamente, não causa nenhum problema; mas Arthemis elevou isso a um nível completamente diferente. Ela sempre quis ter um exército ao seu dispor, e descobriu que alimentando um ser vivente vezes o suficiente com nosso próprio sangue é possível gerar um vínculo de lealdade como você jamais encontrará em nenhum outro lugar do mundo; e o pior: O humano eventualmente 'deixa' de ser humano. Passa a ser um híbrido maldito.  Mais forte, mais ágil, mais perigoso. Um cão de briga; constantemente buscando mais e mais sangue vampiro para saciar sua abstinência. Ele se torna o que chamamos de Carniçal.

- Você sabe que eu não posso te deixar continuar com isso, não sabe? Dimitri, Você, e essa sua "pequena" ambição, vão levar A Máscara à ruína! - Falei cautelosamente, pois sabia que em um combate direto com aquela verdadeira deusa da guerra, eu não teria chances. Precisava preparar o terreno. Precisava pensar em algo, e rápido!

Ah, é? E o que você planeja fazer acerca disso, Oh, Ryan, "O poderoso salvador da raça Vampírica"? - Seu sarcasmo era quase tão nítido quanto minha apreensão.

"É o que eu gostaria de saber também" - pensei, calado.

Ás de Espadas.


Saindo do casebre do Helsing, pude vislumbrar de maneira bem clara o que esperava por mim: Sangue. Tudo que eu temia havia acontecido, e o bastardo do príncipe moveu suas peças muito mais rapidamente do que eu esperava - Ele com certeza tem melhores informantes do que eu pensei...

É importante explicar para vocês como funciona a sociedade vampírica. Antes de tudo, existe "A Máscara". A cortina que nós criamos propositalmente para que vocês, humanos, não saibam da nossa existência. Ela nada mais é do que um enredo de conceitos e regras tácitas sobre tudo o que não deve, e não pode, acontecer. Se um não-vivo quebra qualquer regra que componha A Máscara, nós mesmos o exterminamos. Tudo o que não queremos são vocês, ovelhas, cientes da presença de nós, lobos. Ainda mais quando existem ovelhas com dedos perigosamente posicionados sobre botões de bombas atômicas e armas biológicas. Não é que temamos uma guerra; mas, pra gente, vocês são muito mais úteis vivos do que mortos aos milhões. É pura matemática básica.

Como já deve ter dado pra perceber, existe uma certa ordem em meio ao caos. Para estabelecer essa ordem, diversas organizações, como conselhos, agremiações e congressos, são constantemente realizados entre os do meu tipo. Eventualmente uma gama de sugadores de sangue mais velhos e poderosos se reúnem para discutir como anda o caminhar das coisas, e bater o martelo acerca de algumas diretrizes mais importantes. O responsável, no entanto, para fazer cumprir essas diretrizes, é chamado de "Príncipe". Ele funciona mais ou menos como o título lhe sugere, já que o poder concentra-se em sua mão durante a esmagadora maioria do tempo. Ele deveria ser o membro menos animalesco, e mais civilizado, da região que lidera. Infelizmente nem sempre é isso que ocorre.

Você deve estar se perguntando o que eu, Ryan Ghalaham, sou; no meio de tudo isso. Bem, eu não sou nada. Exatamente. Eu sou apenas um filho da mãe de dentes afiados tentando sobreviver meu século a século, escapando por entre os afiados dedos da mão daquela que conhecemos como "Morte Verdadeira". Alguns de nós não gostam da não-vida, mas eu não pertenço à essa casta. Os mais próximos não escondem sua indignação quanto à mim. Todos continuam se referindo ao que eu faço como uma limpeza, como uma espécie de "Justiça", mas eu não me vejo assim. E odeio esse apelido que eles me colocaram - "O Ás de Espadas", tsc. Mas maldição... Até que soa bem.

Continuei perseguindo o rastro do odor que o atacante deixou, na casa de Helsing. Ele me guiou por entre algumas dezenas de ruas escuras, e acabou por finalizar-se na boca-de-lobo de um esgoto - Odeio ter que estragar meu Armani... - Pensei enquanto descia as barras de ferro. Não tive surpresa ao me deparar com um lugar muito diferente de um canal de água pútrida e imunda. Era um salão, grande e espaçoso. Imponente até. Do outro lado estava sentado um não-vivo de aparência afrodescendente. Devia pesar uns 200 quilos, e sua careca ainda queimava sob o efeito da água benta. Pelo cheiro, era exatamente quem tinha atacado Thorin mais cedo.

O que me assustou foi quem estava ao seu lado. Magra, alta e nobre, estava ali Arthemis, a mesma imortal que há 480 anos atrás tinha cravado suas deliciosas presas no meu pescoço, e me presenteado com a vida eterna.

- Há quanto tempo Ryan. Ou devo lhe chamar de Ás de Espadas, como o populacho? De qualquer maneira, aceita um chá?

Linhagens e Monarquias



Encontrei o pobre bastardo do Thorin Van Helsing fedendo a bebida e surrado, jogado debaixo de alguns escombros, em sua... É, acho que poderíamos chamar aquilo de “Casa”, se estivéssemos complacentes o bastante.

O garoto sangrava e tinha algumas dezenas de fraturas espalhadas pelo corpo. Seu sangue, no entanto, não me afetava de maneira alguma; de forma que levantei o guri e fiz o favor de jogá-lo embaixo de um chuveiro ligado com água gelada. Ele se contorceu e gemeu. Eu, logicamente, ri.

É impressionante como as pessoas conseguem jogar sobrenomes gloriosos no lixo. Olhem para esse maldito. Ta-ta-tataraneto de um dos humanos mais decentes – Não que isso seja uma qualidade – Que já conheci, e agora vive movido a álcool e prostitutas baratas. Uma completa desgraça. Eu estaria fazendo um favor se o matasse agora mesmo, mas infelizmente preciso dele para continuar com meus desígnios.

Os humanos não sabem - Eles nunca sabem de nada - mas não existem poucos não-vivos. Estamos por aí desde que o mundo é mundo – Alguns, inclusive, literalmente, viram Jesus. BEM de longe, com certeza – E não apenas não somos poucos, como estamos em todos os lugares, também. Programas de TV, Governos, Senados, Liderando multinacionais, você poderia encontrar nosso tipo em qualquer lugar, em quase qualquer momento. Utilizando nossas influências sobrenaturais, se torna ridiculamente fácil manipular o mundo ao nosso redor. Eu, por exemplo, fiz meu primeiro milhão de dólares comprando ações de uma pequena empresa que, mais tarde, viria a dominar o mundo desse negócio que chamam de informática. Tudo tão simples e fácil quanto realizar um rápido ritual babilônico de predição de futuro no quintal de casa, numa fatídica madrugada de domingo. Você deve conhecer essa empresa, ou pelo menos o símbolo dela... – Em minha defesa, eu votei contra a ideia de uma maçã mordida, mas fazer o quê né? Parece ter dado certo com as massas...

Enfim... Influência, dominação, inteligência e manipulação são a minha praia, mas nem todos são como eu. Assim como existem humanos pardos, negros e amarelos; existem também distinções entre os do meu tipo. Existem espécies de “raças”, cada qual com características únicas e peculiares. Por exemplo, todos nós somos mais fortes e rápidos que humanos normais, mas nem todos conseguem derrubar prédios com socos, ou correr tão rápido quanto um fórmula 1. Acompanhando a minha história vocês irão, eventualmente, conhecer a maioria dos tipos de bebedores de sangue que existem - Isto é, se sobreviverem por tempo o suficiente

Um deles esteve aqui, hoje. Os buracos na parede com a forma de um punho e o cheiro de cachorro molhado por água de esgoto estão tão fortes que quase não é necessário ser um Vampiro para poder sentir. Algum deles esteve aqui e fez de tudo para  colocar um fim em Thorin, mas pelo visto o moleque não é um idiota completo. Guardou uma antiga maleta do velho Van Helsing, e soube utilizar algumas bugigangas que deviam estar dentro dela.

Ele está acordando. Corto meu pulso e o deixo beber um pouco do meu sangue, já que isso passa uma ínfima porcentagem dos nossos poderes curativos, até mesmo para os humanos. É quase audível o processo do seu maxilar voltando ao lugar, e, assim que ele para de gritar com a dor, me sussurra aquilo que eu já sabia – Puta merda! Isso foi o príncipe!? Ele está ficando ousado...

Bom, acho que não tenho muito pra onde correr. É hora de acabar com mais uma monarquia - Que saco.


- Comece a me falar, Thorin. Tudo. Desde o começo.
Proxima  → Página inicial