"A Minha história com o Helsing".



Phew! - finalmente anoiteceu. Tive uma baita série de péssimos sonhos durante essa tarde, mas por sorte – Ou azar – Percebi que os gritos que vinham daquela fogueira não eram meus.

É difícil não-viver quando se tem algumas centenas de anos, como eu. As memórias acabam se confundindo, e coisas que aconteceram no período da renascença se tornam, às vezes, mais vívidas do que os anos 90. E caaara, os anos 90 foram uma bagunça. Com todo aquele Kurt Cobain e Guns’n Roses pairando por todo o lado. A música era boa, mas aguentar toda aquela tietagem pra lá e pra cá era um saco. Não é de se espantar que o coitado estourou a própria cabeça com uma doze.


Caite me alimentou bem por ontem, e hoje me sinto saciado o suficiente para não ter que sair imediatamente em busca de uma caçada apressada. Posso me dar ao luxo de subir no terraço e apreciar aquele já descrito vento noturno que tanto me agrada. Ele é a única coisa que quase me faz acreditar que alguma parte da minha humanidade ainda existe, escondida lá no fundo de toda a escuridão que tomou seu lugar.

De cima do teto, apoiado na gárgula, vejo a cidade respirar sob meus pés. É mesmo um organismo vivo, com veias brilhantes sendo desenhadas pelos traços de neon que os faróis deixam ao cruzar velozmente sua vastidão.  Essas veias estão prontas para serem abertas pelas minhas garras e verter tudo o que têm de melhor direto para dentro de mim.

Espreguiço-me, como se tivesse uma real necessidade disso. Meus ossos já não precisam das cartilagens para amortecer seus movimentos; apenas o sangue que há em mim exerce seus poderes sobrenaturais de não apenas permitir que um cadáver ande e fale, mas, também, de fazê-lo ainda mais destro do que jamais algum humano poderá chegar a ser – Tenho 480 anos, mas com o corpinho de 18.

Salto do terraço para o beco lateral abandonado, enquanto me transformo em névoa para suavizar a aterrissagem. Isso me faz lembrar o dia em que conversei pela primeira vez com o Van Helsing. Ele procurava O Conde, junto com um monte de outros humanos, e é claro que eu ajudei-o com tudo que pude – O que não era muito, obviamente. Não, não por ser uma boa causa, ou por bom samaritanismo,  é claro;  mas simplesmente porque aquele tiozão maluco não queria ser só o rei da Transilvânia, mas, de tudo!

...E eu não me ajoelho perante ninguém. Claro que também não ia bater de frente com aquele monstro! Mas, graças a Deus, temos Caçadores burros corajosos o suficiente para isso. E pior, alguns realmente ainda conseguem sair vivos - É desses que você tem que ter medo.

Talvez eu devesse prestar uma visita ao descendente do velho barbado. No final das contas, ele me prestou um favor e tanto ao eliminar Titio Drac do jogo - Mas como era o nome dele mesmo...? Thorn? Thron? Thairus...? Arght! Não importa. Não é nenhuma informação que 20 dólares e um bom soco na cara não compre, nas vizinhanças do Bronx.

Finalmente alcanço o chão escuro do beco. Meus passos ecoam conforme eu ando decididamente em direção às luzes artificiais. Alguns roedores menos sortudos ficam debaixo dos meus sapatos, e seus guinchos são incômodos, junto com o barulho dos seus ossinhos quebrando.  


Limpo o pé na beirada da calçada, sorrindo, claro. Roedores mortos sempre me deram sorte.
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