Ás de Espadas.



Saindo do casebre do Helsing, pude vislumbrar de maneira bem clara o que esperava por mim: Sangue. Tudo que eu temia havia acontecido, e o bastardo do príncipe moveu suas peças muito mais rapidamente do que eu esperava - Ele com certeza tem melhores informantes do que eu pensei...

É importante explicar para vocês como funciona a sociedade vampírica. Antes de tudo, existe "A Máscara". A cortina que nós criamos propositalmente para que vocês, humanos, não saibam da nossa existência. Ela nada mais é do que um enredo de conceitos e regras tácitas sobre tudo o que não deve, e não pode, acontecer. Se um não-vivo quebra qualquer regra que componha A Máscara, nós mesmos o exterminamos. Tudo o que não queremos são vocês, ovelhas, cientes da presença de nós, lobos. Ainda mais quando existem ovelhas com dedos perigosamente posicionados sobre botões de bombas atômicas e armas biológicas. Não é que temamos uma guerra; mas, pra gente, vocês são muito mais úteis vivos do que mortos aos milhões. É pura matemática básica.

Como já deve ter dado pra perceber, existe uma certa ordem em meio ao caos. Para estabelecer essa ordem, diversas organizações, como conselhos, agremiações e congressos, são constantemente realizados entre os do meu tipo. Eventualmente uma gama de sugadores de sangue mais velhos e poderosos se reúnem para discutir como anda o caminhar das coisas, e bater o martelo acerca de algumas diretrizes mais importantes. O responsável, no entanto, para fazer cumprir essas diretrizes, é chamado de "Príncipe". Ele funciona mais ou menos como o título lhe sugere, já que o poder concentra-se em sua mão durante a esmagadora maioria do tempo. Ele deveria ser o membro menos animalesco, e mais civilizado, da região que lidera. Infelizmente nem sempre é isso que ocorre.

Você deve estar se perguntando o que eu, Ryan Ghalaham, sou; no meio de tudo isso. Bem, eu não sou nada. Exatamente. Eu sou apenas um filho da mãe de dentes afiados tentando sobreviver meu século a século, escapando por entre os afiados dedos da mão daquela que conhecemos como "Morte Verdadeira". Alguns de nós não gostam da não-vida, mas eu não pertenço à essa casta. Os mais próximos não escondem sua indignação quanto à mim. Todos continuam se referindo ao que eu faço como uma limpeza, como uma espécie de "Justiça", mas eu não me vejo assim. E odeio esse apelido que eles me colocaram - "O Ás de Espadas", tsc. Mas maldição... Até que soa bem.

Continuei perseguindo o rastro do odor que o atacante deixou, na casa de Helsing. Ele me guiou por entre algumas dezenas de ruas escuras, e acabou por finalizar-se na boca-de-lobo de um esgoto - Odeio ter que estragar meu Armani... - Pensei enquanto descia as barras de ferro. Não tive surpresa ao me deparar com um lugar muito diferente de um canal de água pútrida e imunda. Era um salão, grande e espaçoso. Imponente até. Do outro lado estava sentado um não-vivo de aparência afrodescendente. Devia pesar uns 200 quilos, e sua careca ainda queimava sob o efeito da água benta. Pelo cheiro, era exatamente quem tinha atacado Thorin mais cedo.

O que me assustou foi quem estava ao seu lado. Magra, alta e nobre, estava ali Arthemis, a mesma imortal que há 480 anos atrás tinha cravado suas deliciosas presas no meu pescoço, e me presenteado com a vida eterna.

- Há quanto tempo Ryan. Ou devo lhe chamar de Ás de Espadas, como o populacho? De qualquer maneira, aceita um chá?
← Anterior Proxima  → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário