Maré de Sangue.



- Arthemis! Não sabia que tinha entrado para o ramo do circo. Desde quando treina gorilas? - Falei, impregnando cada palavra de todo o preconceito raivoso que conseguia reunir dentro de mim. Não, não acerca da cor da pele do outro Vampiro, mas sim quanto à sua origem: Um nojento de sangue tão fraco que até mesmo os traços familiares das linhagens boiavam por sobre a água que era sua vitae.

O grandalhão enfureceu-se e levantou. Logo pude ver como até mesmo o bebarrão do Thorin conseguiu sobreviver a ele: Era muito lento e desengonçado. Não tive que me esforçar muito para esquivar do seu primeiro soco, que deslocou uma enorme massa de vento por sobre minha cabeça, que se abaixou agilmente. Girando apoiado sobre meus calcanhares, rodei, repousando minhas duas mãos por sobre a superfície dos seus globos oculares. Arranquei seus olhos.

Seu guincho foi alto, e foi quase cômico ver seus 200 quilos de gordura e músculos caindo como um gigantesco saco de batatas. Eu nunca fui conhecido por minhas habilidades de combate, mas não se sobrevive 480 anos sem saber um truque ou dois. E esse eu aprendi na prática: Olhos, por sua complexidade e delicadeza, são as partes mais difíceis e demoradas para um Vampiro regenerar. Aquele guarda-costas estava fora de jogo, pelo menos pelos próximos 50 minutos.

- Obrigado por adiantar o que eu já ia fazer. Podemos voltar aos negócios? - Essa era a voz de Arthemis. Impressionante como o tempo só lhe fazia bem; como um vinho cuidadosamente cultivado. Como esperado, ela apenas sorria enquanto assistia seu capanga estrebuchar no chão, chorando bobagens inaudíveis. Eu respondi:

- Claro. E então, quando você vai começar a explicar que merda está fazendo ao lado do Príncipe?! Pensei que você soubesse o quanto o Dimitri é uma ameaça à nossa raça, Arthemis! Por que você está agindo como mais uma de suas marionetes idiotas? E sério, atacar o Helsing? Você sabe que lhe demos anistia. Nenhum vampiro pode tocá-lo! Nós o devemos. Já imaginou se o tetravô dele não tivesse tirado O Conde da equação? Como seria nossa não-vida hoje?!

Sua voz foi clara - Ora, Ryan. O que é isso que consigo vislumbrar? Você tem ficado mole com o tempo? Está defendendo seu amiguinho cachaceiro? Acho que não fiz um bom trabalho nos 30 anos que passei te treinando, fiz? E se O Helsing-Avô conseguiu colocar um fim ao Vlad Tapes, você não tem uma parcela de culpa nisso? Aiai... Você não vê, Ás de Espadas? Não vê que os tempos mudaram!? Hoje tudo o que nos define são os números - Ela deslizava por entre os poucos metros que nos separavam, num misto de rapidez e lentidão. Seus olhos emitiam um brilho completamente insano. Familiar.

Números? - Perguntei - Que tipo de números? Do que diabos você está falando? - A minha curiosidade era genuína.

- Meu Deus, você, O grande ÁS DE ESPADAS, está tão por fora assim? Pensei que teria feito o mínimo do seu dever de casa antes de comprar essa briga. Dimitri tem me permitido o que nenhum outro Príncipe nos últimos 200 anos permitiu, Ryan. Ele me deixou começar meu pequeno exército. O meu sonho de toda uma não-existência! No começo eu tinha no máximo 500 carniçais. Desde que eu e ele nos aliamos, meus números cresceram, digamos... Exponencialmente.

Carniçais! Mais um dos lixos imundos que compõe nosso tempo moderno. São humanos que se viciam no nosso sangue imortal. Alimentá-los uma vez, esporadicamente, não causa nenhum problema; mas Arthemis elevou isso a um nível completamente diferente. Ela sempre quis ter um exército ao seu dispor, e descobriu que alimentando um ser vivente vezes o suficiente com nosso próprio sangue é possível gerar um vínculo de lealdade como você jamais encontrará em nenhum outro lugar do mundo; e o pior: O humano eventualmente 'deixa' de ser humano. Passa a ser um híbrido maldito.  Mais forte, mais ágil, mais perigoso. Um cão de briga; constantemente buscando mais e mais sangue vampiro para saciar sua abstinência. Ele se torna o que chamamos de Carniçal.

- Você sabe que eu não posso te deixar continuar com isso, não sabe? Dimitri, Você, e essa sua "pequena" ambição, vão levar A Máscara à ruína! - Falei cautelosamente, pois sabia que em um combate direto com aquela verdadeira deusa da guerra, eu não teria chances. Precisava preparar o terreno. Precisava pensar em algo, e rápido!

Ah, é? E o que você planeja fazer acerca disso, Oh, Ryan, "O poderoso salvador da raça Vampírica"? - Seu sarcasmo era quase tão nítido quanto minha apreensão.

"É o que eu gostaria de saber também" - pensei, calado.
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