Olhos Selvagens






No saguão subterrâneo, o ar pútrido se condensava até quase tornar-se visível. Gases emitidos pelas tubulações grossas que saíam das laterais das paredes faziam o ambiente ficar com um tom esverdeado, que contrastava com a presença magnânima que Arthemis emitia; presença esta que era emanada naturalmente - Característica chave do seu clã Vampírico

"Malditos Ventrue..." - Amaldicoei, corrigindo-me depois - "Não, espera... Eu também sou um" - Ri nervosamente, fazendo com que minha algoz parasse por uma fração de segundo.



Do que está rindo, Ryan? - Sua voz doce e seu tom arrogante preenchiam a saleta e abafavam os gritos do seu lacaio que ainda estrebuchava no chão, tentando regenerar os olhos dilacerados por minhas garras - Não me diga que julga ser capaz de vencer-me - Desafiou.

Me toma por tolo, Arthemis? Eu conheço suas habilidades centenárias de combate melhor do que qualquer um... - Havia ganhado tempo o suficiente. Minha mente já houvera tracejado meus próximos passos. Agora era só uma questão de executá-los antes de ter minha cabeça arrancada fora do corpo; o que, se tratando de Arthemis, seria a primeira coisa a ser feita caso eu não fosse de fato lightning fast.

...Mas sabe o que eu também conheço com a palma da minha mão? Essa cidade! - Corri, utilizando-me do sangue humano que absorvera nas últimas horas para conferir poder às minhas pernas. Pude sentir-me movendo tão rápido quanto o vento, com Arthemis ao meu percalço; próxima num nível que me permitia sentir sua respiração. Mas eu não fugi.

Contornei uma depressão que havia no chão da galerIa em que estávamos e saltei utilizando o servo da Vampira como suporte, já que ele estava em uma posição de quatro apoios, começando a erguer-se. Um chute em sua coluna para ganhar impulso e pudemos todos escutar os ossos daquele que um dia fora um gigantesco e negro homem, esfarelando-se sob o impacto. Um segundo passo no ar enquanto meu corpo viajava em direção ao teto ilustrava aquele pulo acrobático, e um terceiro movimento de minha mão selava a estratégia que eu tinha criado para mim.

Manifestando minhas garras, cortei a superfície metálica do cano como se aquilo fosse feito de isopor vencido. O rasgão fez toda a tubulação tremer e ranger, explodindo num jato de água suja, fezes e detritos; como um geiser pútrido e perpendicular ao solo. Desfazendo meu corpo em névoa, permiti que a água atingisse aquela que vinha imediatamente atrás de mim e não esperava aquela ação súbita. O grosso, sujo e poderoso jato encontrou o peito aberto de Arthemis, arremessando-a com força contra o chão e rapidamente começando a inundar a galeria. Continuando na minha forma de névoa, me direcionei tão rápido quanto pude pelos tubos ali abertos; materializando-me assim que senti o ar da noite.

Era um beco, por sorte, vazio. Devia estar em algum lugar do centro da cidade, julgando pelas sirenes e barulho de máquinas caça-níqueis que meus ouvidos treinados distinguiam ao longe. Usar todos aqueles dotes vampíricos consumira quase todo o estoque de sangue humano que eu havia armazenado, mas pelo menos aquilo serviria para atrasar minha antiga mestra pelo tempo necessário para o que estava por vir.

Comecei a andar sorrateiramente pelas ruas da cidade. Precisava me manter calmo. Caminhei saindo do beco e direcionando-me para a casa de Helsing, pronto para levá-lo para fora da cidade. Uma guerra estava por vir, e eu não iria quebrar o pacto que eu tinha feito com o ancestral do pobre bêbado. A honra era importante para mim naquela época tanto quanto minha sobrevivência é hoje em dia. Apressadamente, cheguei à residência do meu ''amigo humano''; mas o que vi me deixou pasmo.
Ele estava sentado ao lado de uma mulher de pele morena, larga do tipo forte para os lados e de olhar selvagem. Em muitas formas ela me lembrava uma espécie de animal selvagem. Pelo fluxo sanguineo que percorria seu corpo, dava para notar que era humana; mas a sua postura denunciava não ser um mortal comum. Pela minha fome, acredito que naturalmente me precipitei em sua direção com os dentes à mostra, mas fui impedido por uma força estranha. Sobrenatural e quente. Algo que me fazia sentir como se minha própria existência fosse um ultraje ao mundo. Uma depressão elevada à enésima potência.

Do peito da garota, um brilho prateado emanava de um crucifixo do tamanho de um smartphone.

Não pode ser... Quem é você? - Exclamei, pasmo. Porque, quem quer que fosse, aquela mulher possuía um dom que eu julgava ser apenas lenda contada para os novos vampiros dormirem.

V-Você... Tem... Fé Verdadeira! - Deixei meu queixo cair, enquanto a estranha sorria vorazmente.

O que eu tenho, Ás de Espadas, não é da sua conta. Mas é da minha conta as informações que você tem. Permita-me dizer meu nome... Eu sou Kethleen; a primeira caçadora de vampiros de minha ordem - Ela respirou - E eu vim matar todos vocês.
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