Uma noite de São João





Os fogos estalavam alto no céu. As pessoas riam. As fogueiras emitiam o barulho do crepitar do fogo, junto com uma fumaça insistente que teimava em remover perfumes e fazer prevalecer seu cheiro e fuligem. Era, em última análise, uma noite boa.

A banda tocava uma das melhores músicas, dessas que nem mesmo as centenas de anos conseguirão apagar. Eu andei com aquele meu sorriso característico no rosto. Peito cheio. Pose de quem sabe o que faz. Esse tem sido meu melhor ato, meu melhor papel, nos últimos 25 anos. Eu sou bom nisso.

Cheguei no local, e junto com mil outros personagens, fiz uma festa. O álcool e a adrenalina foram se misturando até fazer começar a gerar aquele velho conhecido palpitar sem ritmo, no peito. Os meus dedos tamborilavam a melodia do forró, denunciando que havia chegado num limiar no qual era perigoso continuar bebendo. E a música tocava. E eu dançava. E o meu papel permanecia intacto.

Até determinado ponto, quando ela apareceu. 

Haviam então duas alternativas: Ceder ao impulso ou manter a dignidade. Meu cérebro fazia contas e matemáticas sentimentais na velocidade da luz, mas é claro que eu sabia que aquilo era mera vaidade. Eu não poderia ceder. Dar o braço a torcer já não era mais uma possibilidade. Ela mesma tinha roubado isso de mim.

Concluí, nesse momento, que pior do que se humilhar por amor é justamente ter tido de si roubada a possibilidade de sequer tentar se humilhar por amor. E, por mais foda que isso seja, ela tinha roubado isso de mim.

Procurei um cigarro, mas naquela noite eu não estava fumando. Dei mais um trago na bebida e então respirei fundo para começar a iniciar meu caminho rumo ao saco que é ter orgulho e amor próprio. De peito inflado, como sempre, iniciei a caminhada. E foi uma bosta.

Mas, nos dez minutos seguintes, eu já não lembrava mais. 
Eu sou bom em não lembrar mais.
Eu sou realmente bom nisso.

E o baile seguiu; e de alguma forma eu senti que quem mais perdeu naquela noite... Não tinha sido eu.




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